Google, Facebook e Microsoft induzem usuário a escolher opções que reduzem a privacidade, diz relatório

Um estudo do Conselho Norueguês do Consumidor, uma entidade financiada pelo governo da Noruega, aponta que o Google, o Facebook e a Microsoft utilizam “padrões obscuros” na interface para induzir o usuário a fazer escolhas que ferem a privacidade. O material foi publicado nesta quarta-feira (27).

O estudo foi realizado em função da nova lei de proteção de dados da Europa (conhecida como “GDPR”). A legislação obriga que as opções padrão sejam sempre no sentido de resguardar a privacidade e que qualquer modificação seja realizada apenas com o consentimento “informado” dos consumidores.

Embora as empresas tenham adotado telas novas para adquirir o consentimento das pessoas, o estudo norueguês mostra que as empresas empregaram truques para que as pessoas optem pelas opções mais invasivas.

Exemplo dado pelo estudo para desativar personalização de anúncios no Facebook: permitir requer apenas dois cliques, mas negar exige quatro cliques e opção só aparece após clicar em botão com fundo sem destaque ('Manage Data Settings'') (Foto: Reprodução)

Exemplo dado pelo estudo para desativar personalização de anúncios no Facebook: permitir requer apenas dois cliques, mas negar exige quatro cliques e opção só aparece após clicar em botão com fundo sem destaque (‘Manage Data Settings”) (Foto: Reprodução)

No caso do Google e especialmente do Facebook, as empresas escondem as telas onde é possível desativar parte da coleta de dados. O linguajar usado também informa apenas os pontos negativos (como “não ver mais anúncios do seu interesse”) e não os impactos de longo ou situações que o consumidor poderia reprovar. O estudo levantou dúvidas se essa abordagem é suficiente para atender ao critério de informação exigido pela lei.

Além disso, aceitar a coleta de dados nesses serviços exige um único clique, mas desativar exige passar por uma segunda tela, ver mais texto e realizar mais um clique.

No caso da Microsoft, os noruegueses avaliaram as novas opções de privacidade do Windows 10. Diferente do Facebook e do Google, o número de cliques para aceitar ou recusar a coleta de informações é o mesmo. Porém, o Windows sempre coloca a opção mais invasiva em primeiro, destaca os pontos negativos de bloquear a coleta de dados e ainda utiliza ícones diferentes para cada opção, com o ícone mais “positivo” sendo sempre aquele que coleta mais dados.

Tela de exemplo de estudo norueguês mostra como o Windows pode induzir o usuário a aceitar coleta de dados com ícone positivo (lâmpada acesa), deixando a opção de maior privacidade com ícone negativo (lâmpada desligada) e em segundo lugar (Foto: Reprodução)

Tela de exemplo de estudo norueguês mostra como o Windows pode induzir o usuário a aceitar coleta de dados com ícone positivo (lâmpada acesa), deixando a opção de maior privacidade com ícone negativo (lâmpada desligada) e em segundo lugar (Foto: Reprodução)

As três empresas defenderam suas práticas. A Microsoft informou que cumprir a lei europeia é uma “prioridade”. O Google afirmou que vem melhorando constantemente os meios que permitem que o usuário faça suas escolhas. Já o Facebook declarou que deixou todas as opções de privacidade mais claras, que cumpre a lei e que suas práticas estão de acordo com recomendações de especialistas em privacidade e interface.

Apesar de o estudo ter sido baseado na legislação europeia, oito entidades nos Estados Unidos estão pedindo para que a Comissão Federal do Comércio (FTC, na sigla em inglês), uma agência reguladora, inicie uma investigação sobre possíveis práticas enganosas adotadas pelas empresas.

‘Padrões obscuros’

O estudo afirma que o emprego de elementos visuais para induzir o usuário a fazer escolhas contrárias ao seu próprio interesse, mas que beneficiam a empresa responsável pelo serviço ou aplicativo, são casos de “dark pattents” (“padrões obscuros”, em tradução livre para o português). O termo foi criado por Harry Brignull, um especialista em desenvolvimento de interfaces.

O estudo encontrou exemplos dos seguintes “padrões obscuros”:

  • Os padrões sugeridos, mais fáceis de serem aceitos, não favoreciam a privacidade;
  • Os textos explicativos induziam o usuário a escolher a opção contrária à privacidade;
  • Foram empregados elementos de cor e ícones para induzir o usuário a aceitar a coleta de dados;
  • O usuário recebe as opções de privacidade na forma de “alertas”, dando a entender que ele precisa liberar o acesso aos dados;
  • A configuração é oferecida com “urgência”, não deixando claro como o usuário pode continuar usando o serviço e decidir dar seu consentimento mais tarde.

As telas analisadas pelo estudo norueguês foram criadas para entrar em conformidade com a nova legislação europeia, o que significa que consumidores de fora da Europa — como é o caso do Brasil — não receberam esses avisos.

Porém, as opções de privacidade das redes sociais estão disponíveis para todos:

  • Facebook: tela de privacidade (https://www.facebook.com/privacy/)
  • Google: personalização de anúncios (https://adssettings.google.com/authenticated) e check-up de privacidade (https://myaccount.google.com/privacycheckup/)
  • Windows: do menu Iniciar, acesse Configurações > Privacidade

Fonte: G1 Globo

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